sábado, 27 de fevereiro de 2010

É Sábado, vim trabalhar como sempre.

A porta pesada, que se arrasta ao abrir, cria a expectativa de que estará do outro lado.

O ambiente aqui dentro é acolhedor, a alma das pessoas que por aqui passaram e passam, está agarrada às paredes altissímas, pintadas de tons coloridos.

A sala de chá está vazia hoje. Não se ouve o burburinho das vozes e os risos, nem se sente o aroma a chá quente e a convívio.

Na sala grande decorre um curso de perspectiva. Os alunos, muito concentrados, aprendem as linhas condutoras da realidade à sua volta. Os fios invisiveis, que tocam o nosso olhar, sem que nos apercebamos da sua existência.

Aprendem as inclinações e os planos da vida e como ter um olhar de quem realmente vê, e não de quem se limita a olhar.

A professora, alta e loira, parece saida de um qualquer colégio inglês. Fala com os alunos num tom de voz tímido mas firme. E os seus passos, que mal se ouvem, dão a sensação de que flutua pela sala. 

Está tanto vento que me sinto como se estivesse dentro de uma caixa de papel. Sentada ao computador vou respondendo aos e-mails que chegaram durante a noite.

O ar entra pelas frinchas das janelas e os vidros abanam. As folhas de papel mexem-se sozinhas como se alguém estivesse a soprar constantemente.

A chuva anunciada para a madrugada de hoje tarda a vir, e ainda bem...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Os autocarros podem ser sítios estranhos, onde nos sentimos como se fôssemos transportados numa nave espacial vinda de outro mundo.

Hoje tive essa sensação ao voltar para casa. O autocarro estava anormalmente cheio. À minha frente, entrou uma família, julgo que avós, filha e o neto. Por coincidência ficaram sentados mesmo à minha frente o que fez com que fosse inevitável observá-los e escutar o vomitar de palavras sem nexo, para qualquer pessoa minimamente normal.

A avó tinha-se esquecido de pentear o cabelo que se colava à cara e que "abria" no alto da sua cabeça, mostrando o couro cabeludo. As madeixas, em dois castanhos completamente opostos, coroavam este cenário.

Ao lado sentava-se a filha, cuja raiz do cabelos frisados e mal pintados, ia desde o couro cabeludo até a 3/4 do comprimento do cabelo. O que fazia com que o cabelo fosse grisalho até mais de metade e depois dum tom estranhíssimo de castanho alourado. Usava um anorak dum tom gasto de vermelho, cujas mangas dobradas exibiam um forro às florzinhas azuis. Os mocassins de Verão, amarelos, e as calças de ganga curtas deixavam ver umas meias castanhas com uns ursinhos.

O Avô, sentado no lado oposto, levava uma bóina que parecia ter ganho vida e adquirido as características do cabelo do velhote, parecendo ela própria ter caspa.

O neto...confesso que quando olhei para ele antes de entrar no autocarro pensei: coitadinho é deficiente!
Devia ter uns 14 anos. O cabelo encaracolado e espesso não devia ser lavado ha cerca de 2 ou 3 dias. A boca estava sempre aberta, como se lhe fosse impossível respirar se a fechasse, e o lábios sempre húmidos, como uma criança que se baba constantemente.

Não bastando este cenário de horror, esta família foi o caminho todo, desde a Praça da Figueira até Belém a comentar os horário de TODOS os autocarros, o local para onde ia cada um e se era normal aquele autocarro passar por ali ou não. Mostrando-se espantadissímos cada vez que surgia um número novo!

Do mais novo ao mais velho, todos pareciam mergulhado num estado de estupidez colectiva...
Reparei em ti no eléctrico. O olhar distante e triste, a cara inchada pelas horas de sono perdidas. Parecia que carregavas às costas todos os problemas do mundo.

De vez em quando o teu olhar tinha um brilhozinho, como se, de repente, encontrasses a solução para algo que te preocupava. Esse brilho durava apenas um segundo, mas tornava-te, por instantes, noutra pessoa.

Uns olhos pequenos e doces surgiam no meio da névoa que era a tua expressão há minutos atrás.

Duvido que estivesses a ouvir a música que os teus headphones gritavam. Olhavas pela janela e procuravas uma réstia de sol que teimava em não aparecer. Pingos grossos de chuva começaram a bater no vidro.....

Suspiraste e puseste uns óculos de sol que te tapavam quase toda a cara, redonda e jovem. Mas nem esses conseguiam esconder-TE. Encostaste a cabeça ao vidro e perdi de novo os teus olhos cor de amêndoa.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Educativo, sem dúvida, mas genial ao mesmo tempo!

MONÓLOGO DE UMA MULHER MODERNA:

São 5h30 da manhã, o despertador não pára de tocar e não tenho forças nem para atirá-lo contra a parede. Estou acabada. Não quero ir trabalhar hoje. Quero ficar em casa, a cozinhar, a ouvir música, a cantar, etc. Se tivesse um cão levava-o a passear nos arredores. Tudo, menos sair da cama, meter a primeira e ter de por o cérebro a funcionar.

Gostava de saber quem foi a bruxa imbecil, a matriz das feministas que teve a ideia de reivindicar os direitos da mulher e porque o fez connosco que nascemos depois dela? Estava tudo tão bem no tempo das nossas avós, elas passavam o dia todo a bordar, a trocar receitas com as suas amigas, ensinando-se mutuamente segredos de condimentos, truques, remédios caseiros, lendo bons livros das bibliotecas dos seus maridos, decorando a casa, podando árvores, plantando flores, recolhendo legumes das hortas e educando os filhos. A vida era um grande curso de artesãos, medicinas alternativas e de cozinha.

Depois, ainda ficou melhor, tivemos os serviços, chegou o telefone, as telenovelas, a pílula, o centro comercial, o cartão de credito, a Internet! Quantas horas de paz a sós e de realização pessoal nos trouxe a tecnologia!

Até que veio uma tipa, que pelos vistos não gostava do corpinho que tinha, para contaminar as outras rebeldes inconsequentes com ideias raras sobre 'vamos conquistar o nosso espaço'... Que espaço?! Que caraças! Se já tínhamos a casa inteira, o bairro era nosso, o mundo a nossos pés!

Tínhamos o domínio completo dos nossos homens, eles dependiam de nós para comer, para se vestirem e para parecerem bem à frente dos amigos... E agora, onde é que eles estão? Agora eles estão confundidos, não sabem que papel desempenham na sociedade, fogem de nós como o diabo da cruz. Essa piada, acabou por nos encher de deveres. E o pior de tudo é que acabou nos lançando no calabouço da solteirice crónica aguda!

Antigamente, os casamentos eram para sempre. Porquê? Digam me porquê... Um sexo que tinha tudo do melhor, que só necessitava de ser frágil e deixar-se guiar pela vida começou a competir com os machos... A quem ocorreu tal ideia? Vejam o tamanhão dos bíceps deles e vejam o tamanho dos nossos! Estava muito claro que isso não ia terminar bem.

Não aguento mais ser obrigada ao ritual diário de ser magra como uma escova de dentes, mas com as mamas e o rabo rijos, para o qual tenho que me matar no ginásio, ou de juntar dinheiro para fazer uma mamoplastia, uma lipo, ou implantes nas nádegas... Alem de morrer de fome, pôr hidratantes anti-rugas, padecer do complexo do radiador velho a beber água a toda a hora e, acima de tudo, ter armas para não cair vencida pela velhice, maquilhar-me impecavelmente cada manhã desde a cara ao decote, ter o cabelo impecável e não me atrasar com as madeixas, que os cabelos brancos são pior que a lepra, escolher bem a roupa, os sapatos e os acessórios, não vá não estar apresentável para a reunião do trabalho. E não só mas também, ter que decidir que perfume combina com o meu humor, ter de sair a correr para ficar engarrafada no transito e ter que resolver metade das coisas pelo telemóvel, correr o risco de ser assaltada ou de morrer numa investida de um autocarro ou de uma mota, instalar-me todo o dia em frente ao PC, trabalhar como uma escrava, moderna claro está, com um telefone ao ouvido a resolver problemas uns atrás dos outros, que ainda por cima não são os meus problemas!!! Tudo, para sair com os olhos vermelhos - pelo monitor, porque para chorar de amor não há tempo!

E olhem que tínhamos tudo resolvido... Estamos a pagar o preço por estar sempre em forma, sem estrias, depiladas, sorridentes, perfumadas, unhas perfeitas, operadas, sem falar do currículo impecável, cheio de diplomas, de doutoramentos e especialidades, tornámo-nos super-mulheres, mas continuamos a ganhar menos que eles e, de todos os modos, são eles que nos dão ordens!!!! Que desastre! Não seria muito melhor continuar a cozer numa cadeira?? Basta!!!

Quero alguém que me abra a porta para que possa passar, que me puxe a cadeira quando me vou sentar, que mande flores, cartinhas com poesias, que me faça serenatas à janela! Se nós já sabíamos que tínhamos um cérebro e que o podíamos utilizar, para quê ter que demonstra-lo a eles??

Ai meu Deus, são 6h10 e tenho que me levantar da cama... Que fria está esta solitária e enorme cama! Ahhhh... Quero um maridinho que chegue do trabalho, que se sente ao sofá e me diga: 'Meu amor não me trazes um whisky por favor?' ou 'O que há para jantar?'... Porque descobri que é muito melhor servir-lhe um jantar caseiro do que abocanhar uma sanduíche e beber uma Coca-Cola light, enquanto termino o trabalho que trouxe para casa.

Pensas que estou a ironizar ou a exagerar? Não, minhas queridas amigas, colegas inteligentes, realizadas, liberais e idiotas! Estou a falar muito seriamente...

Abdico do meu posto de mulher moderna. E digo mais: A maior prova da superioridade feminina era o facto de os homens esfalfarem-se a trabalhar para sustentar a nossa vida boa!

Agora somos iguais a eles!
Há pessoas que passam na nossa vida e que gostaríamos de manter sempre por perto...
Pessoas a quem nos podemos dar como somos, com quem não usamos máscaras e que nos aceitam com todas as particularidade do nosso eu mais profundo.
Essas pessoas, raras excepções num mundo que vive de aparências e fingimentos, nem sempre ficam por perto como desejamos. Representam relações frágeis, devido à sua singularidade. E assim, basta um momento de menor dedicação para que uma relação tão especial como esta caia em ruínas.
Ao contrário da maioria das relações, no momento em que as fundações desabam, não há nada que se possa fazer ou dizer para as voltar a erguer. A perda é irremediável e simboliza uma dor que nos acompanha para sempre...