quinta-feira, 27 de maio de 2010

Joaquim anda na escola da aldeia com apenas dez colegas. São três rapazes entre sete raparigas!

Joaquim, Pedro e Francisco são amigos e vizinhos neste pequeno aglomerado de casas que se encostam à serra.

As manhãs de estudo trazem tardes de brincadeira no terreno do Tio Manuel e da Tia Rosa, um casal de velhotes que se sentam em cadeiras de baloiço a observar os filhos da aldeia…

Vêem-nos como uma porção de netos que vieram apaziguar a sua solidão, dando vida ao terreno que possuem na parte de trás da Câmara Municipal.

As meninas jogam ao jogo do elástico como se de acrobatas se tratassem. Os rapazes olham-nas de soslaio, entre as jogadas ao berlinde, apostando, entre sorrisinhos cúmplices, que uma de delas se há-de enrolar naquele emaranhado.

No entanto, como por magia, as raparigas dão algumas voltas certeiras que as fazem escapar daquela teia elástica, deixando-os de boca aberta.

A meio da tarde já todos se cansaram de brincar separados uns dos outros, pelo que, depois duma disputa pelos melhores companheiros de equipa, decidem jogar ao jogo da “mamã dá licença” em que todos podem participar.

As gargalhadas das crianças ecoam pela aldeia e provocam sorrisos entre os adultos.

Os jogos sucedem-se e as vozes agudas entoam lengalengas ensinadas pelos pais e avós:

Cabra-cega, donde vens?

Venho da Serra.

O que me trazes?

Trago bolinhos de canela.

Dá-me um!

Não dou.

Ao fim do dia as mães juntam-se às crianças naquele pequeno paraíso. Está na hora do jantar e todos devem recolher às suas casas. Amanhã será um novo dia de brincadeiras.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Clara e os colegas esperaram ansiosamente por este dia, desde que a professora Raquel lhes comunicou que iriam fazer uma visita ao museu.


Todos sentem o museu como um local mágico, com cheiro a descobertas, que lhes traz sempre algo novo para aprenderem e onde gostam de sonhar sentados no chão a sentir o frio das lajes antigas.

De bicos de pés espreitam as vitrines que exibem objectos para os quais cada uma imagina as mais diversas funções.

Dividem-se em pequenos grupos e exploram as áreas de que mais gostam.

Clara senta-se em frente a um dos painéis a observar.

Ali sentada deixa-se embalar pelo som do acordeão e do bandolim pendurados na parede ao lado. Fazem-lhe companhia os caretos que não se cansam de chocalhar. Dos painéis saltam os pauliteiros que acrescentam ritmo à música. As varinas suspendem o pregão para oferecerem voz a esta melodia, que também conta com um grupo de cantares alentejanos.

As cores vivas dos trajes dos convivas neste baile espalham-se por toda a sala misturados com o brilho dos cordões das meninas namoradeiras e dos brincos de filigrana.

A professora chama as crianças que despertam dos sonhos que aquela atmosfera lhes traz: o sonho de um museu que é delas e onde deixam um pouco de cada um em cada visita.
Todos os caminhos vão hoje dar à aldeia.


As casas estão enfeitada com flores, bandeirolas de todas as cores e um número sem fim de luzes que, ao anoitecer, iluminarão o "salão de baile" que se instala agora na praça central.

A esplanada do Sr. Gilberto prepara-se para acolher os visitantes. O carrossel, o cinema ambulante, a barraca de tiro ao alvo e outros jogos estão montados. O cheiro a farturas e a bifanas dança no ar ao som dos primeiros acordes que a banda ensaia no coreto.

As meninas casadoiras usam vestidos novos que mandaram fazer na D. Amélia, a costureira. Os rapazes fazem uma visita extra ao barbeiro. Aparar o bigode, fazer a barba e dar um jeitinho ao cabelo é essencial para impressionar as meninas.

Pelas ruas a alegria dos populares sente-se nas gargalhadas, no brilho dos olhos das gentes que deambulam observando as barraquinhas. No jardim da praça central alguns homens juntam-se à conversa. Outros, sentados nas esplanadas improvisadas, jogam às cartas e outros ainda, com grande euforia, jogam à malha.

As mulheres preparam os últimos petiscos e dispõem o artesanato nas barraquinhas. Como um maestro, o pároco orienta-as sob o olhar atento do Sr. Presidente da Câmara que enrola o bigode com impaciência. Enquanto a sua mulher, D. Estrelinha, se encolhe dentro dum vestido às bolinhas.

Algumas crianças correm entre os adultos. Outras divertem-se a a jogar ao berlinde enquanto aguardam que a festa comece.

Há festa na aldeia!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Aquele foi, sem dúvida, um dia marcante nas suas vidas. A relação entre os dois sempre tinha sido atribulada, mas chegava agora o momento em que os dois estavam preparados para se entregarem à partilha dos seus sentimentos, dúvidas, preocupações, sem julgamentos, apenas com o amor que tinham para dar um ao outro.

Ele sempre se tinha deixado levar pelos problemas, vivia mergulhado na tristeza, absorvido pelo que os outros poderiam pensar dos momentos menos felizes da sua vida. Tratava-a com paternalismo, utilizando quase sempre a desculpa da experiência de vida que ele tinha e que a ela lhe faltava.

Essa perspectiva da vida, e a maneira como ele lidava com ela, sempre lhe tinha provocado uma irritação sem limites, o que motivava, quase sempre, os conflitos entre os dois.

Nesse dia ela ensinou-o a viver.

Mostrou-lhe como ser feliz.

Já nada é o mesmo.

sexta-feira, 7 de maio de 2010